Séculos de tradição



Quem fizesse uma viagem no tempo e assistisse à comemoração do Carnaval de Loures na primeira metade do século passado, com certeza não encontraria muitos pontos de contacto com o Carnaval Saloio dos dias de hoje. Mas afinal que festa é esta? Quais as suas razões, tradições e por que marcou indelevelmente a história do concelho durante séculos?

A origem da celebração do Entrudo remonta à época dos Gregos e dos Romanos, que comemoravam o fim do Inverno e a entrada (daí a palavra “Entrudo”) de um novo ciclo de vida, com a chegada da Primavera. Com o advento da igreja católica, todas estas cerimónias pagãs foram adaptadas ao calendário religioso e passou a associar-se o Entrudo à celebração do último domingo antes da Quaresma. Terá sido nesta época que surge o nome “Carnaval”, que deriva do latim “Carne Valis” e que significa “adeus à carne”, uma das premissas da celebração da Quaresma cristã.

Esta celebração, de carácter libertino, desinibido e folião, ganha um forte incremento com o triunfo do liberalismo no século XIX e, já no início do século passado, com a implantação da República. As liberdades adquiridas fizeram do Carnaval um espaço de crítica social mordaz, onde as atividades libertinas assumiam uma posição relevante durante os festejos, com máscaras a esconder a identificação dos foliões, permitindo um à-vontade irrepetível ao longo de todo o ano.

Durante a primeira metade do século XX já Loures tinha uma forte tradição carnavalesca. À época, as cegadas (teatro de rua) eram muito apreciadas, bem como o “lançamento das pulhas” – perguntas e respostas previamente preparadas que lançavam fortes críticas sociais –
– as danças de luta, os jogos acrobáticos e os famosos bailes de Carnaval, que ainda hoje se realizam. O “enterro do bacalhau”, hoje mais conhecido pelo enterro do Carnaval, era outra tradição com forte adesão popular. Nesse desfile surgiam pela primeira vez os carros alegóricos e uma rainha do Carnaval (então viúva), dando origem mais tarde ao corso carnavalesco e aos reis do Carnaval.

Em Loures, os festejos realizaram-se quase ininterruptamente até à década de 50. Depois de um interregno de vinte anos, é só no final da década de 70 que se retoma esta tradição. Por iniciativa dos Bombeiros Voluntários de Loures, que pretendiam angariar fundos para a construção da nova sede, ressurge um novo Carnaval, já com marcadas influências brasileiras. Aparecem os corsos de Domingo e Terça-Feira gordos que, ainda assim, mostravam em alguns carros as antigas tradições da região: o carro saloio, o carro das hortas, o carro dos pescadores de Frielas, entre outros.

Depois de pequenas aparições esporádicas durante a década de 80, o Carnaval de Loures ganhou novo folego a partir do final do século XX e, sobretudo, no século XXI. Com a criação da Associação do Carnaval de Loures, o apoio da Junta de Freguesia de Loures e do Município, foi possível consolidar a festa, criar condições para a construção da sede da Associação e envolver dezenas de grupos e associações nos grandes corsos carnavalescos.

Hoje, são mais de um milhar de figurantes que desfilam pelas ruas da cidade, organizando-se ainda bailes, coroação dos reis do carnaval, um desfile de carnaval infantil e o célebre enterro do Rei Momo, um dos momentos mais importantes de seis dias de intensos festejos.

Não se podendo dizer que a tradição ainda é o que era, o Carnaval de Loures continua a ser bem saloio e é, por si só, uma bandeira desta região. Felizmente, está bem vivo e recomenda-se, garantindo um espaço mediático nos principais órgãos de comunicação social do país e trazendo a Loures milhares de visitantes todos os anos.