| De que forma
surge a fotografia na sua vida? O meu pai tinha
um pequeno estabelecimento comercial em frente à antiga Fábrica
da Loiça de Sacavém e eu, ainda muito novo, aprendi
a conviver com os operários da fábrica.
A partir de certa altura, o meu pai decidiu que a minha progressão
profissional deveria de passar pela própria fábrica.
Primeiro fui paquete e depois empregado de escritório neste
enorme complexo industrial mas, como é óbvio, devo
ter sido o pior empregado de escritório do mundo, pois não
tinha aptidão para a profissão.
Mas a verdade é que foi esse facto que me marcou toda a
vida: a partir dos doze, treze anos, comecei a ganhar sensibilidade
para determinados factos, como por exemplo ver, à saída
da fábrica, os seus antigos operários a pedirem esmola.
Essa visão marcou-me e, como o meu irmão Armando tinha
uma pequena máquina fotográfica de plástico,
que felizmente ainda guardo de recordação, iniciei-me
na fotografia tentando registar os rostos, os olhares e as expressões
de toda essa miséria social.
Mais tarde, alguns amigos emprestaram-me melhores máquinas
fotográficas e, com a ajuda de alguns colegas que me iam
dando algumas dicas a nível estético e técnico
que me fizeram evoluir bastante.
Embora seja um autodidacta, penso que cedo mostrei que tinha alguma
qualidade, já que ia conseguindo registar os momentos certos
e captando os olhares mais profundos de uma determinada situação.
Como avalia a fotografia portuguesa
dos anos 50?
Nessa altura estava muito na moda a chamada “fotografia de
salão”, muito rebuscada, onde perdurava o pôr
do Sol, as paisagens idílicas, entre outras. Sem ter noção
disso, penso que fui fazendo uma ruptura com esse quadro social
instituído. Talvez por isso mesmo, a partir dos dezasseis
anos comecei a entrar em concursos de fotografia e ganhei imensos
prémios a nível nacional e internacional. O primeiro
prémio que ganhei, em 1955, foi num concurso organizado pelo
Sindicato dos Empregados de Escritório do Distrito de Lisboa.
Escusado será dizer que causei sensação devido
à minha tenra idade.
Começou então o fotojornalismo...
É verdade. Também por essa altura comecei a trabalhar
para uma revista de Vila Franca de Xira chamada Vida Ribatejana.
Como tinha a tal imagem de marca um pouco diferente dos fotógrafos
da altura, tive muita aceitação e, em 1957, fui trabalhar
para o Diário Ilustrado.
Como não tinha grande experiência, comecei por trabalhar
no laboratório e, só mais tarde, é que comecei
a ser requisitado para fazer trabalhos de entrevistas onde me esmerei
para mostrar serviço. Algum tempo depois havia jornalistas
que já me escolhiam preferencialmente a mim para fazer alguns
trabalhos. A partir daí, com altos e baixos, não mais
parei e a fotografia e o fotojornalismo acompanharam-me ao longo
de toda a minha vida.
Com
o 25 de Abril aparece o Eduardo Gageiro mais institucional: o fotógrafo
oficial da Presidência da República e da Assembleia
da República. Como é que conseguiu ligar a sua irreverência
profissional às regras rígidas da fotografia protocolar?
Depois da Revolução convidaram me para fazer fotografias
para um catálogo oficial da Assembleia da República.
As pessoas, nessa altura, já me conheciam bem, especialmente
pelo trabalho que fiz durante a própria revolução.
Mais tarde, necessitaram de um fotógrafo para determinadas
sessões parlamentares mais importantes, e foi daí
que veio o convite para trabalhar para esse órgão
do Poder Central. Era um trabalho de “bate-chapas”,
que não fazia com grande prazer, embora fosse necessário
do ponto de vista financeiro. Fui ficando e só agora, com
o Governo actual, é que prescindiram dos meus serviços
e foram contratar o fotógrafo oficial do partido do Governo.
Sacavém e a Fábrica
da Loiça. Duas imagens marcantes para si...
A fábrica hoje já não me diz nada. São
apenas recordações de um tempo diferente, e só
tenho pena de tudo ter acabado da forma como foi, com dramas familiares
de milhares de pessoas. Continuo a falar com antigos trabalhadores,
e tratam-me sempre com grande carinho, pois recordam-se dos bons
tempos que passámos. Quanto à cidade, embora não
seja muito bela e se tenha transformado num dormitório de
Lisboa, é a minha cidade. Tem um museu lindíssimo,
uma frente ribeirinha que, infelizmente, se continua a degradar,
mas mantém alguns encantos, principalmente para as pessoas
que aqui nasceram e foram criadas.
Embora em algumas alturas da minha vida, principalmente quando
trabalhei no Século Ilustrado e na Presidência da República,
não tenha tido muito tempo disponível, penso que ao
longo dos últimos cinquenta anos, fui fotografando a cidade
e as suas gentes de uma forma contínua.
Num “flash” da sua memória
o 25 de Abril é o seu grande momento?
É o mais importante, quer a nível profissional, quer
a nível pessoal. Até aí sempre tive medo de
morrer sem ver esse dia e fiquei com a sensação que,
depois da Revolução, poderia morrer feliz. É
claro que, para mim, que vivi os momentos mais importantes ao lado
do meu amigo Salgueiro Maia, o 25 de Abril teve um impacto tremendo.
Fiz algumas fotos marcantes, como aquela em que na sede da PIDE
o soldado retira a fotografia do Salazar, e estive presente nos
momentos mais dramáticos, como o encontro das tropas no Terreiro
do Paço.
Tive a felicidade de ter boas informações e depois
a coragem de estar presente. Nestas condições o importante
é não ter muito medo, pois algum todos têm,
e o factor sorte também é decisivo. Depois é
saber aproveitar e viver o momento.
Qual
a fotografia mais marcante da sua vida?
Tenho algumas fotografias importantes, como uma que tirei aquando
da tomada de reféns durante os Jogos Olímpicos de
Munique, em 1972, ou aquela na sede da PIDE, que já referi.
Se tivesse de escolher alguma, talvez optasse por uma em que o
Salgueiro Maia cerra os dentes e morde o lábio e que foi
tirada na altura em que a tropas de Cavalaria 7, fiéis ao
Governo, optam por aderir à Revolução. Mais
tarde ele disse-me que esse foi o momento em que se apercebeu que
a Revolução triunfara.
É um saudosista ou procura
acompanhar o desenvolvimento?
Tenho alguma dificuldade de aderir ao digital, em termos de fotografia,
porque gosto muito do cheiro do laboratório. Essa continua
a ser uma paixão. No entanto, como autodidacta que sempre
fui, a inovação e a modernidade fazem parte da minha
maneira de ser. Tento sempre procurar e acompanhar a criação
e a novidade. Tive uma vida cheia de emoções, guardo
em minha casa um espólio assinalável que mais tarde
será entregue ao Museu da Cerâmica de Sacavém,
mas não me vejo como um saudosista.
Como é o concelho de Loures
pelos olhos de Eduardo Gageiro?
Embora tenha nascido aqui, infelizmente conheço pouco da
região saloia. Ainda assim vejo esta zona como uma terra
de gente boa, fraterna e muito próxima da sua terra. Como
optimista que sou, olho para Loures como uma terra com muitas potencialidades
e com um futuro risonho pela frente.
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Exposição
A Fábrica e Sacavém
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