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LOURES MUNICIPAL Nº6
 
Pessoas e Lugares
Exposição: A Fábrica e Sacavém
 

Pessoas e Lugares
Eduardo Gageiro
“Os meus ideais ficaram marcados no meu trabalho”

Aos 68 anos, Eduardo Antunes Gageiro assume-se como um fotógrafo que sempre procurou a diferença e a ruptura com o socialmente instituído.

 

Com um passado riquíssimo, onde se destaca a sua passagem pela Presidência da República (foi o fotógrafo oficial durante os mandatos presidenciais do general Ramalho Eanes), Gageiro, em entrevista à Loures Municipal, deixa expressa a sua vontade em continuar e assume que a fotografia será sempre a paixão da sua vida.

 

Com centenas de prémios conquistados por esse mundo fora, vários livros publicados e fotografias marcantes, nomeadamente as que dizem respeito ao 25 de Abril, este sacavenense acredita que Loures é uma terra “com um futuro risonho pela frente”.

 
De que forma surge a fotografia na sua vida?

O meu pai tinha um pequeno estabelecimento comercial em frente à antiga Fábrica da Loiça de Sacavém e eu, ainda muito novo, aprendi a conviver com os operários da fábrica.

A partir de certa altura, o meu pai decidiu que a minha progressão profissional deveria de passar pela própria fábrica.

Primeiro fui paquete e depois empregado de escritório neste enorme complexo industrial mas, como é óbvio, devo ter sido o pior empregado de escritório do mundo, pois não tinha aptidão para a profissão.

Mas a verdade é que foi esse facto que me marcou toda a vida: a partir dos doze, treze anos, comecei a ganhar sensibilidade para determinados factos, como por exemplo ver, à saída da fábrica, os seus antigos operários a pedirem esmola. Essa visão marcou-me e, como o meu irmão Armando tinha uma pequena máquina fotográfica de plástico, que felizmente ainda guardo de recordação, iniciei-me na fotografia tentando registar os rostos, os olhares e as expressões de toda essa miséria social.

Mais tarde, alguns amigos emprestaram-me melhores máquinas fotográficas e, com a ajuda de alguns colegas que me iam dando algumas dicas a nível estético e técnico que me fizeram evoluir bastante.

Embora seja um autodidacta, penso que cedo mostrei que tinha alguma qualidade, já que ia conseguindo registar os momentos certos e captando os olhares mais profundos de uma determinada situação.

Como avalia a fotografia portuguesa dos anos 50?

Nessa altura estava muito na moda a chamada “fotografia de salão”, muito rebuscada, onde perdurava o pôr do Sol, as paisagens idílicas, entre outras. Sem ter noção disso, penso que fui fazendo uma ruptura com esse quadro social instituído. Talvez por isso mesmo, a partir dos dezasseis anos comecei a entrar em concursos de fotografia e ganhei imensos prémios a nível nacional e internacional. O primeiro prémio que ganhei, em 1955, foi num concurso organizado pelo Sindicato dos Empregados de Escritório do Distrito de Lisboa. Escusado será dizer que causei sensação devido à minha tenra idade.

Começou então o fotojornalismo...

É verdade. Também por essa altura comecei a trabalhar para uma revista de Vila Franca de Xira chamada Vida Ribatejana. Como tinha a tal imagem de marca um pouco diferente dos fotógrafos da altura, tive muita aceitação e, em 1957, fui trabalhar para o Diário Ilustrado.

Como não tinha grande experiência, comecei por trabalhar no laboratório e, só mais tarde, é que comecei a ser requisitado para fazer trabalhos de entrevistas onde me esmerei para mostrar serviço. Algum tempo depois havia jornalistas que já me escolhiam preferencialmente a mim para fazer alguns trabalhos. A partir daí, com altos e baixos, não mais parei e a fotografia e o fotojornalismo acompanharam-me ao longo de toda a minha vida.

Com o 25 de Abril aparece o Eduardo Gageiro mais institucional: o fotógrafo oficial da Presidência da República e da Assembleia da República. Como é que conseguiu ligar a sua irreverência profissional às regras rígidas da fotografia protocolar?

Depois da Revolução convidaram me para fazer fotografias para um catálogo oficial da Assembleia da República. As pessoas, nessa altura, já me conheciam bem, especialmente pelo trabalho que fiz durante a própria revolução. Mais tarde, necessitaram de um fotógrafo para determinadas sessões parlamentares mais importantes, e foi daí que veio o convite para trabalhar para esse órgão do Poder Central. Era um trabalho de “bate-chapas”, que não fazia com grande prazer, embora fosse necessário do ponto de vista financeiro. Fui ficando e só agora, com o Governo actual, é que prescindiram dos meus serviços e foram contratar o fotógrafo oficial do partido do Governo.

Sacavém e a Fábrica da Loiça. Duas imagens marcantes para si...

A fábrica hoje já não me diz nada. São apenas recordações de um tempo diferente, e só tenho pena de tudo ter acabado da forma como foi, com dramas familiares de milhares de pessoas. Continuo a falar com antigos trabalhadores, e tratam-me sempre com grande carinho, pois recordam-se dos bons tempos que passámos. Quanto à cidade, embora não seja muito bela e se tenha transformado num dormitório de Lisboa, é a minha cidade. Tem um museu lindíssimo, uma frente ribeirinha que, infelizmente, se continua a degradar, mas mantém alguns encantos, principalmente para as pessoas que aqui nasceram e foram criadas.

Embora em algumas alturas da minha vida, principalmente quando trabalhei no Século Ilustrado e na Presidência da República, não tenha tido muito tempo disponível, penso que ao longo dos últimos cinquenta anos, fui fotografando a cidade e as suas gentes de uma forma contínua.

Num “flash” da sua memória o 25 de Abril é o seu grande momento?

É o mais importante, quer a nível profissional, quer a nível pessoal. Até aí sempre tive medo de morrer sem ver esse dia e fiquei com a sensação que, depois da Revolução, poderia morrer feliz. É claro que, para mim, que vivi os momentos mais importantes ao lado do meu amigo Salgueiro Maia, o 25 de Abril teve um impacto tremendo. Fiz algumas fotos marcantes, como aquela em que na sede da PIDE o soldado retira a fotografia do Salazar, e estive presente nos momentos mais dramáticos, como o encontro das tropas no Terreiro do Paço.

Tive a felicidade de ter boas informações e depois a coragem de estar presente. Nestas condições o importante é não ter muito medo, pois algum todos têm, e o factor sorte também é decisivo. Depois é saber aproveitar e viver o momento.

Qual a fotografia mais marcante da sua vida?

Tenho algumas fotografias importantes, como uma que tirei aquando da tomada de reféns durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, ou aquela na sede da PIDE, que já referi.

Se tivesse de escolher alguma, talvez optasse por uma em que o Salgueiro Maia cerra os dentes e morde o lábio e que foi tirada na altura em que a tropas de Cavalaria 7, fiéis ao Governo, optam por aderir à Revolução. Mais tarde ele disse-me que esse foi o momento em que se apercebeu que a Revolução triunfara.

 

É um saudosista ou procura acompanhar o desenvolvimento?

Tenho alguma dificuldade de aderir ao digital, em termos de fotografia, porque gosto muito do cheiro do laboratório. Essa continua a ser uma paixão. No entanto, como autodidacta que sempre fui, a inovação e a modernidade fazem parte da minha maneira de ser. Tento sempre procurar e acompanhar a criação e a novidade. Tive uma vida cheia de emoções, guardo em minha casa um espólio assinalável que mais tarde será entregue ao Museu da Cerâmica de Sacavém, mas não me vejo como um saudosista.

Como é o concelho de Loures pelos olhos de Eduardo Gageiro?

Embora tenha nascido aqui, infelizmente conheço pouco da região saloia. Ainda assim vejo esta zona como uma terra de gente boa, fraterna e muito próxima da sua terra. Como optimista que sou, olho para Loures como uma terra com muitas potencialidades e com um futuro risonho pela frente.

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Exposição
A Fábrica e Sacavém

 

Um dos mais aclamados fotógrafos portugueses, Eduardo Gageiro, “regressou” à sua terra natal com uma exposição que é, em si mesma, uma obra de arte.

Depois da Medalha Municipal de Honra, que recebeu em 2002, a Câmara de Loures presta, desta forma, mais uma sentida homenagem a um dos seus mais ilustres munícipes.

Juntar, em pleno Museu da Cerâmica de Sacavém, a sessão solene do aniversário do 25 de Abril e uma exposição de Eduardo Gageiro é, por várias razões, um acto de inteira justiça. Antes de mais porque Eduardo Gageiro, um dos melhores fotógrafos portugueses de sempre, nasceu e cresceu em Sacavém, porque trabalhou na antiga Fábrica da Loiça e porque foi lá que aprendeu a fotografar. Foram as imagens dos operários que, como ele próprio diz, o inspiraram para que o seu trabalho surgisse de uma forma mais humana, incisiva e crítica. Depois, porque o 25 de Abril e Gageiro se confundem, a nível de fotografia, numa imagem só. Nessa histórica madrugada, ele estava lá a fotografar as tropas de Salgueiro Maia nos momentos mais críticos da confrontação militar.

Os invisuais não foram esquecidos nesta exposição, pois fotografias em relevo fazem com que através do tacto também se possa entender a história de uma cidade, das suas gentes e da sua vida.

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