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LOURES MUNICIPAL Nº36
 

 LUPA

Várzea de Loures
Terra com potencial

Outrora uma pequena vila na chamada “zona saloia”, Loures é actualmente sede do quinto concelho mais populoso de Portugal. Apesar do forte crescimento urbanístico que se tem verificado nesta área, ainda é possível encontrar belas paisagens recortadas por imensas zonas verdes que testemunham a convivência harmoniosa entre a cidade e a natureza.
É o caso da várzea de Loures. Nada mais, nada menos do que 736 hectares de terrenos agrícolas, dos quais 708 produtivos. De facto, a várzea faz parte da paisagem de Loures desde sempre, mas são poucos os que dão por ela. O cidadão comum nem sequer tem noção de que muitas famílias fazem daquele local o seu modo de vida, aproveitando a riqueza que a terra dá.
Localiza-se ao longo dos valados dos rios Trancão, da Póvoa e de Loures, das ribeiras da Granja, Roucos, São Roque, Carrafôchas, Mealhada e Caniceiras, abrangendo, no concelho de Loures, as freguesias de Frielas, Loures, Santo Antão do Tojal, São João da Talha, São Julião do Tojal e Unhos.
Estende-se ainda pelo concelho de Vila Franca de Xira, onde abarca a freguesia de Vialonga.
Ao longo das próximas páginas, a Loures Municipal propõe-lhe ficar a conhecer um pouco mais sobre a várzea de Loures, considerada como área detentora dos melhores solos do País e classificada como Reserva Agrícola Nacional.

 

Um pouco de história
A várzea que conhecemos 70 anos depois

No princípio do século XX, a várzea de Loures mais não era que um extenso paul, sendo então conhecida como a campina na bacia hidrográfica do rio Trancão. O proveitamento agrícola resumia-se à produção de junca espontânea e de palha. As cheias eram frequentes e as populações ribeirinhas muito castigadas, tanto mais que as estradas ficavam intransitáveis. As imensas áreas com águas paradas facilitavam a proliferação de insectos, em particular mosquitos, que se constituíam como veículos transmissores de doenças como o paludismo.


Em meados da década de 30 foi decidido intervir na várzea, desassoreando as linhas de água, para promover a regularização fluvial, e procedendo à abertura de valas de drenagem para uma adequada vazão daságuas. As cheias passaram a ter menor frequência. Assim a construção da primeira fase, única até ao momento, teve essencialmente dois objectivos: drenar uma zona insalubre, situada às portas de Lisboa, onde se verificavam frequentes atentados à saúde pública, e promover o cultivo de terrenos de boa qualidade que se encontravam em estado de insuficiente exploração agrícola ou de absoluto desaproveitamento.


De uma maneira geral, os campos de Loures, integrados na obra de defesa e enxugo, produziam quase exclusivamente pastos. Exceptuam-se as terras de cotas mais elevadas, onde a exploração hortícola se desenvolveu, aproveitando a água de poços para o regadio. Este tipo de horticultura tradicional e familiar tornou-se lucrativa dada a proximidade do grande mercado de Lisboa. Com a realização daqueles trabalhos os solos valorizaram-se, permitindo o cultivo de variadas espécies vegetais, muito contribuindo para a riqueza do concelho de Loures.


Só para se ter uma ideia, chegam a sair da várzea, todos os anos, 12 a 14 mil toneladas de tomate, a cultura de Verão com maior expressão na lezíria.

 

A várzea tem, no conjunto do sector agrícola, um lugar de destaque dado que grande parte pertence à Reserva Agrícola Nacional. A horticultura é a principal actividade e pratica- se nas zonas mais elevadas e não sujeitas a inundações, em pequenas explorações familiares, onde se chegam a praticar três colheitas por ano. Essa elevada produtividade possibilita que este tipo de cultura, que ocupa apenas sete por cento da área englobada no perímetro da várzea, corresponda, no entanto, a 60 por cento do rendimento total bruto do aproveitamento. As pastagens permanentes naturais ou semeadas, as culturas de cereais, como o trigo, a aveia, o milho ou a cevada, de cebola e as culturas de regadio merecem também ser destacadas.


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Vacaria em Frielas
Há 50 anos a produzir leite de qualidade

Há quem passe todos os dias por Frielas e nem sequer imagine que, ali mesmo ao lado da entrada para a A8 e rodeada por estradas e vias rápidas, está instalada uma vacaria familiar.


Dirigimo-nos à Quinta da Lezíria Pequena, propriedade de Lino Pacheco, mas foi o filho, Paulo Pacheco, que fomos encontrar. Aliás, é Paulo, acompanhado pelo irmão, o filho e o sobrinho, quem se encarrega das tarefas diárias, agora que Lino Pacheco se reformou.


“Foram os meus pais que começaram com esta vida há 50 anos atrás, sempre em Loures. Mas neste local só estamos desde 1981. As instalações começaram por ser onde hoje está a PROMEC e depois na Quinta do Conventinho, onde é o museu. Só mais tarde viemos para aqui”, explica-nos Paulo.


São 150 vacas leiteiras e outras cem destinadas à reprodução, que todos os dias têm de ser tratadas. Bem cedo, Paulo calça as galochas e põe mãos à obra em tarefas que incluem ordenha, limpeza da manjedoura, execução das camas com serradura e palha, alimentação, entre muitas outras funções que só terminam ao cair da noite.


Paulo, hoje com 45 anos, começou a ajudar os pais mal completou o ciclo preparatório, estando habituado, desde sempre, à vida do campo. Foi mesmo por pouco que não nasceu na manjedoura. “No momento em que rebentaram as águas à minha mãe estava ela no meio de duas vacas, presas à manjedoura, a ordenhá-las à mão”, conta divertido.


Para além do trabalho na vacaria, com as ordenhas diárias, há ainda o trabalho na várzea, onde é produzido feno e milho para alimentar os animais. Uma vida dura mas que Paulo não pretende trocar por nada. “O que me move é o gosto que tenho por esta profissão e por saber que tudo isto é nosso. Começou do nada pelas mãos dos meus pais e o objectivo é ir passando de geração em geração. Habituei-me a esta vida e agora já não consigo ter outra.”


Brevemente será o filho de Paulo, 19 anos, a contribuir para que o negócio cresça com qualidade. “Ele já cá trabalha, mas a meio tempo porque está a estudar. Decidiu tirar medicina veterinária, pelo que prevemos que vá ser uma mais-valia aqui para a quinta.” E será bem necessário porque até nos partos Paulo participa. “ Por vezes o veterinário não chega a tempo e eu, com a experiência do dia-a-dia e com aquilo que vou vendo, de vez em quando aventuro-me e dou uma ajuda. Certa vez, uma vaca estava prenhe de gémeos e eu consegui fazê-los nascer sãos e salvos”, relembra.


De um negócio que teve início com uma vitela, uma carroça e uma burra, em que a erva era apanhada à mão e os fardos transportados ao ombro, surgiu uma vacaria moderna e que hoje está de portas abertas a quem a quiser visitar. Recebe estagiários, escolas e pessoas curiosas que, a título pessoal, sempre passam por ali para “espreitar” e aprender um pouco dos meandros pelos quais passam os queijos que param nas nossas mesas.


“A nossa vida é isto e gostamos de partilhar a nossa vivência na Quinta da Lezíria Pequena. As crianças gostam, aprendem e a nós não nos custa nada.”

 

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Quinta da Boiça
Uma vida entre animais

Quando chegámos à Quinta da Boiça já José Restolho se encontrava em plena agitação no seu ovil, em Unhos. São 1500 ovelhas leiteiras que todos os dias, bem cedinho, necessitam de imensos cuidados, num ritual que começa pelas 5 horas da manhã e só termina perto das 21.


Desde os 18 anos que José Restolho dedica a sua vida à várzea. Começou o negócio do zero, com apenas uma ou duas ovelhas, e hoje, aos 60 anos, não quer deixar morrer o que construiu com tanto esforço. Para isso, conta com a ajuda de duas filhas, uma com 34 e outra com 23 anos, que, apesar de já terem trabalhado em outras áreas, é na agricultura que se sentem à vontade, querendo dar continuidade à tarefa do pai. “Elas têm gosto por isto. As duas vieram pedir-me para trabalhar aqui e, sinceramente, agrada-me essa opção porque não quero deixar isto morrer”, afirma José Restolho com convicção.


Fomos encontrar Lúcia, a mais nova, bastante atarefada na manjedoura. Estava na hora de alimentar as ovelhas. O à-vontade com que Lúcia se movimenta e executa as suas funções demonstra que aquele trabalho não tem segredos para ela. “Sempre me habituei a esta vida desde pequena. Gosto muito de aqui estar e é isto que quero seguir.” A maior ambição é dar continuidade ao trabalho do pai e ajudar o negócio a crescer e nem mesmo a opinião das amigas a demove. “Elas dizem-me que sou nova e que devia escolher outra profissão para o futuro, mas é aqui que eu estou bem. Por isso sou feliz assim”, sorri.


Para conseguir sobreviver numa actividade“cada vez menos rentável”, José Restolho diz que “tem que trabalhar muito”. “Esta vidaé muito dura e o dinheiro é pouco. São sete dias por semana. As ovelhas têm que ser ordenhadas duas vezes por dia, todos os dias”, salientou. O agricultor chega a confidenciar-nos que há 23 anos que não vai à praia. “Desde que a minha filha nasceu que não vejo o mar. Nesta profissão não há férias, sábados, domingos ou feriados”, afirma, resignado. Lúcia concorda e reforça “É verdade, aqui o trabalho nunca está concluído. Há sempre qualquer coisa para fazer.”


Voltámos à Quinta da Boiça às 16h30, hora da segunda ordenha. Entram 48 ovelhas na sala de ordenha mecânica. “Há cerca de dois anos que tenho estas máquinas. Custaram--me dez mil euros, mas com 1500 ovelhas tinha mesmo de ser”, diz José Restolho. Antes, inevitavelmente, tinham de ser ordenhadas à mão, mas para isso “eram precisos seis ou sete pastores e agora já ninguém quer esta vida.” Dali saem cerca de 300 litros por dia para as queijarias. “São os espanhóis que nos compram o leite. Eles são certinhos a pagar no fim do mês.”


Não deu nome às ovelhas mas conhece-as uma por uma e, como não há tradição na família neste tipo de trabalho, tudo o que José Restolho aprendeu foi com a experiência.“A própria vida e os erros é que foram ensinando. E ainda hoje aprendo todos os dias. Não podemos pensar que sabemos tudo. Eu costumo visitar quintas de amigos meus para encontrar referências e ter ideias que me possam ajudar a melhorar.”


Saímos da Quinta da Boiça enquanto José Restolho continua a preparar as suas ovelhas para a ordenha, sabendo nós que a tarde ainda ia ser longa e que o trabalho na várzea ainda estava para durar. O agricultor despediu-se com um sorriso. Às 5 da manhã o ritual repete-se.

 

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Associação de Beneficiários de Loures
Pela defesa da lezíria

A Associação de Beneficiários de Loures tem as funções de gestão e conservação da várzea desde 1947. Conta com 145 sócios, proprietários de terras entre os 730 hectares que compõem a lezíria e onde predomina a horticultura tradicional familiar.

Falámos com Vítor Caliça, Presidente da Associação, com um vínculo de 20 anos a esta sociedade, e com João Moreira, técnico que dedica já 14 anos ao serviço da várzea.Objectivos, funções e expectativas foram o mote para uma conversa com a Loures Municipal.

A várzea foi entregue pelo Estado, em 1947, à Associação de Beneficiários de Loures (ABL) para a sua gestão e manutenção. As iniciativas da Associação na reabilitação da rede hidrográfica da várzea de Loures caracterizam-se por intervenções ao nível do sistema primário de drenagem (rios e ribeiras), do sistema secundário (valas principais, também chamadas de “valas reais”, que têm por função canalizar a água para as comportas de maré) e o sistema terciário, que é o conjunto das valas que drenam as águas das propriedades particulares.

Todo o sistema primário está dotado de um sistema de diques de defesa que evitam a entrada das águas das linhas de água e o consequente alagamento dos terrenos agrícolas e das culturas instaladas. As intervenções realizadas são principalmente de desobstrução e melhoria dos leitos dos rios, ribeiras e linhas de água, reparação dos rombos nos diques de defesa, reparação do pavimento nas estradas, abertura e limpeza de poços e charcos, manutenção das comportas, construção de pontões e passagens hidráulicas e promoção e apoio das iniciativas de formação e de desenvolvimento das actividades agrícolas no Aproveitamento Hidroagrícola.

Muitas das acções de conservação e manutenção da Associação de Beneficiários de Loures são desenvolvidas em zonas consideradas prioritárias, de forma a reduzir a probabilidade de ocorrência de inundações e prejuízos em pessoas e bens, causados pelos temporais de Inverno, como sucedeu nas cheias de 1967 e 1983.

De referir que muitos dos trabalhos desenvolvidos não estão sujeitos a planeamento, mas sim dependentes de quando e onde acontecem. No caso da várzea de Loures só a experiência acumulada e um acompanhamento diário possibilita minorar situações potenciais de risco e, por outro lado, operacionalizar devidamente o seu funcionamento.

Protocolo com Autarquia

A Câmara Municipal de Loures e a Associação de Beneficiários de Loures assinaram, no dia 30 de Julho, um protocolo visando a defesa do ambiente, nomeadamente as linhas de água do Trancão e a várzea de Loures.

O acordo, válido por um ano, foi firmado entre o Presidente da Câmara Municipal de Loures, Carlos Teixeira, o Presidente e o 2.º Vogal da Direcção da Associação, Vítor Caliça e Gregório Silva, respectivamente, estabelecendo as seguintes competências:

A Associação de Beneficiários de Loures compromete-se a limpar e a desobstruir as linhas de água da zona de Loures – linhas de água do Trancão e várzea de Loures e a prestar apoio técnico e logístico.

Por outro lado, a Câmara Municipal de Loures define as prioridades das intervenções, transfere uma verba anual no valor de 26 mil euros para a associação, fornece 6500 litros de combustível (gasóleo) para as máquinas e concede apoio ao nível de cartografia.

É ainda de realçar o papel do Departamento de Ambiente da Autarquia, que fica responsável pela definição das zonas a serem limpas.

Quais os objectivos desta associação?
O nosso objectivo é defender a obra feita pelo Estado há quase 70 anos. A várzea era um paul, uma zona insalubre que originava problemas de saúde às populações envolventes. Para resolver o problema o Estado iniciou uma obra de drenagem, resultando uma área de excelente qualidade, sobretudo para a agricultura. Esta associação foi criada para gerir a obra e apoiar, na medida do possível, o desenvolvimento agrícola na várzea.

Como encontraram a várzea e como é que ela está agora?
Durante 50 anos esteve cá uma equipa que fez o trabalho possível na altura. Mas a várzea, como não é uma área de regadio, começou lentamente a decair. Ultimamente, graças à crescente mecanização, ao aparecimento de novos sistemas de rega e de equipas mais jovens que investiram muito dinheiro na várzea, deu-se uma expansão de culturas para áreas até então impensáveis. A partir daí tem vindo a investir-se bastante na terra. Aqui na várzea há fome de terra. Se mais espaço houvesse, mais terra estava cultivada.

Mas existem hectares de terra que não estão cultivados…
As zonas da várzea que não se vêem cultivadas pertencem a proprietários que não querem arrendar ou explorar na expectativa de poderem fazer ali um loteamento ou uma urbanização.
De facto existe uma incompatibilização entre o crescimento urbano e a preservação deste espaço que é muito produtivo. Estamosàs portas de Lisboa e temos as produções asseguradas.
Há alguns anos atrás, devido ao dinheiro que se ganhava com a construção, certas empresas compraram terrenos na várzea na expectativa de poder mudar o PDM e assim urbanizar. Mas tudo indica que não vão poder ir avante com essas ideias. Quanto mais não seja porque nós estamos aqui para evitar que isso aconteça. Uma coisa é certa, se a associação desaparecer, a várzea entra em completa degradação.

Como gostariam de ver a várzea?
Em termos técnicos, gostaríamos de ver a várzea com mais regadio. Das cerca de 40 associações do País, a nossa nunca teve uma barragem construída a montante. A exploração de água que fazemos é proveniente apenas dos rios, poços ou furos. Precisamos de mais água para podermos trabalhar melhor a terra.
Depois, era bonito ver a várzea transformada numa zona de lazer. Actualmente, já é com muito agrado que encontramos cada vez mais gente a vir para aqui andar de bicicleta, correr ou fazer parapente. Quem entra no coração da várzea e olha à volta vê que ainda está muito ruralizada e naturalizada. Se conseguirmos mantê-la assim durante mais dez anos, as pessoas poderiam usufruir ainda mais deste espaço e experimentar um conjunto de actividades. Agora, fazerem projectos megalómanos será sempre um conflito com quem cá está a trabalhar e precisa deste espaço para a sua vida empresarial e agrícola.

Que projectos têm em curso?
Agora estamos a fazer a recuperação do nosso antigo centro agrícola. A finalidade é recuperar o edifício para a sede da associação.
No novo quadro comunitário, temos em vista um projecto de drenagem que vai contemplar o sistema secundário e terciário de toda a várzea, que inclui a recuperação de seis comportas de maré, no rio Trancão, na zona de Unhos e na encosta de Santa Iria de Azóia. Vão ser construídos um conjunto de pontões para permitir o atravessamento das máquinas.

Com que apoios conta esta associação?
Além de sermos tutelados pelo Ministério da Agricultura, que se encarrega das obras estruturais, financiando parte desses projectos, e do aluguer que fazemos das nossas máquinas, somos apoiados pela Câmara de Loures. O nosso historial de colaboração já é grande. Agora oficializámos essa cooperação através de um protocolo.
De facto, a Câmara tem feito um esforço enorme na requalificação da várzea. Antes da construção da ETAR, as linhas de água eram emissários de esgoto. Isso está a melhorar nitidamente e até já vemos o regresso de alguma fauna. Tudo isso é bonito de se ver. Mas o próprio meio natural precisa de alguns anos para recuperar. Todos nós apostamos que a várzea será um espaço de excelência para as populações.

 

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