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LOURES MUNICIPAL Nº31
 

PESSOAS E LUGARES

Há pessoas que têm histórias de vida, mas outras há cuja vida é uma verdadeira história.
É o caso de Francisco da Silva Araújo. Foi considerado o melhor mecânico de bicicletas do mundo, conviveu lado a lado com verdadeiros monstros sagrados das duas rodas como Joaquim Agostinho, Eddy Merckx, Greg Lemond, Sean Kelly ou Stefan Roche.
Por tudo isto, o “Xico Araújo de Sacavém”, como carinhosamente ainda hoje é tratado pelo pelotão internacional, é uma personagem única.

Seria impossível escrever aqui o currículo de Francisco Araújo. Ficam apenas alguns dos números mais impressionantes da vida deste ilustre sacavenense que ainda hoje recorda a sua terra com paixão: 42 Voltas a Portugal em Bicicleta, 23 Campeonatos do Mundo, seis Tours (Volta à França), quatro Vueltas (Volta à Espanha) e ainda a participação nos Jogos Olímpicos de Atlanta. Pelo meio, milhares de outras provas, clássicas e por etapas, dezenas de distinções e a grande honra de ter sido considerado pelo jornal francês L’Equipe e pela Televisão Francesa dois anos consecutivos (1982 e 1983) o melhor mecânico do mundo velocipédico. No meio de tudo isto, a amizade que o uniu a Joaquim Agostinho, corredor que acompanhou ao longo de toda a vida, trouxe-lhe o único verdadeiro momento de amargura: a queda do grande campeão, num fatídico fim de tarde nas estradas algarvias. Foi ele o primeiro a confortá-lo, a ajudá-lo a montar de novo na bicicleta e a chegar à meta… vestido de amarelo. Como sempre acontece aos grandes campeões!

Historicamente, Sacavém não é das terras mais ligadas ao ciclismo. Como é que nasceu a sua paixão pelas duas rodas?
O meu pai veio para Lisboa como empregado de uma barbearia e, mais tarde, foi para Sacavém, onde conheceu a minha mãe e ali ficou. Chegou a ter quatro barbearias, quatro tabernas e um ferro-velho, pelo que se pode dizer que teve uma vida boa, assim como eu e o meu irmão.  
Ainda miúdo, em vez de seguir os negócios do meu pai, fiquei fascinado com uma oficina de bicicletas que funcionava numa casa alugada aos meus próprios pais. Essa casa, onde acabei por começar a aprender o ofício, foi a primeira a abrir em toda aquela zona. Ainda cheguei a ser mecânico das antigas bicicletas pasteleiras que os leiteiros usavam. Mais tarde, fui para Moscavide para pedir emprego ao ciclista Júlio Mourão, que também tinha uma casa de bicicletas. Ele deu-me logo trabalho e fui ficando agarrado a este mundo das duas rodas até hoje.

Continua a ir a Sacavém?
Sim, sempre que posso vou, pois é lá que tenho os meus amigos e é lá que me sinto em casa. Estou sempre disponível para ir a Sacavém, sou sócio do Sacavenense, da Academia e de quase todas as colectividades de Sacavém. Vou lá, convivo com o pessoal mais velho do meu tempo, e é uma alegria ver aquela gente da minha geração. Quando vou para o estrangeiro, os jornalistas têm a mania de perguntar se sou de Lisboa e eu digo sempre que não, digo que sou de Sacavém. Tenho muito orgulho da minha terra.
Hoje vivo em Arcena (Alverca), pois a minha mulher é desta zona e tínhamos um terreno para construir a nossa casa. Mas sou e serei sempre filho de Sacavém, a terra onde nasci e cresci.

Para além de Sacavém e do ciclismo, ainda tem outra paixão: a columbofilia…
Fui dez anos campeão de Sacavém e o primeiro campeonato de fundo disputado pelo concelho de Loures foi ganho por mim. Mas fui obrigado a deixar a columbofilia porque tive de acompanhar o Joaquim Agostinho quando ele foi para França.

Falemos agora de ciclismo. Afinal, qual é o verdadeiro segredo para se ser um bom mecânico de bicicletas?
Um mecânico de alta competição é totalmente diferente de um mecânico de oficina. Tem que ter muita responsabilidade, as medidas têm que ser tiradas ao milímetro, e todo o trabalho tem que ser preparado ao pormenor, pois a saúde e mesmo a vida dos ciclistas está em jogo.
Quando me falam da complexidade desta profissão, costumo dar o exemplo das rodas. Quando comecei, os raios as rodas das bicicletas de alta competição partiam-se com muita facilidade sem que ninguém entendesse o porquê. Como sempre gostei dessa área, estudei, investiguei e acabei por criar um tipo de raios novos quando exercia funções na fábrica de bicicletas Mavic, em França. Posso dizer que este sistema, a que chamam “arraiamento Araújo”, ainda hoje é usado por todos os mecânicos portugueses e estrangeiros.
 
Na sua carreira viveu uma fase curiosa, pois passou pela transição do ciclismo amador para o profissional. Como português, com pouca experiência nestas andanças, qual foi o impacto quando chegou a França?
Tive uma grande vantagem, pois comecei a ir para o estrangeiro com a selecção nacional desde 1963, nomeadamente para Espanha. Hoje já não acontece nada disso. Fui o primeiro mecânico português na Volta à França do Futuro, em 1964. A partir desse ano, comecei logo a aprender o “abc” dos mecânicos estrangeiros. E tudo aquilo que aprendi lá fora ensinava aos mecânicos portugueses. Para além disso, tive a sorte de acompanhar o Sporting na Volta à França de 1975, e depois acabei por ser contratado para as equipas do Jean Garibaldi, onde estava o Joaquim Agostinho. Não se pode dizer que tenha sido fácil a integração, mas podia ter sido pior.

Nessa altura era talvez a pessoa que mais percebia de bicicletas em Portugal?
Desde 63/64 que me comecei a destacar, mas, de facto, só com a minha ida para França pude aperfeiçoar-me no ofício. Em Portugal, devido à falta de dinheiro, estava habituado a consertar todo o material. Em França, era o contrário: quando alguma coisa se partia mandavam fora e compravam novo. Quando cheguei à equipa do Garibaldi, passei a fazer o que se fazia em Portugal e ele começou a ganhar muito dinheiro comigo. Por isso, passei a ser mecânico de ensaio das fábricas de bicicleta da Mavic e da Vitos. A minha função era reportar todos os pormenores ao engenheiro da fábrica, e o material não podia sair para o mercado sem eu dizer aos engenheiros que estava tudo em condições.
Lembro-me perfeitamente que o Gribaldy tinha muito orgulho em mandar-me a colóquios sobre mecânica e eu, pequeno português, lá ia ensinar aos próprios franceses o que é que se devia fazer se um quadro de bicicleta se partisse, pois eles não sabiam adaptar os quadros aos ciclistas. Tudo isto ficou registado, e o Gribaldy dizia muitas vezes que tinha muito orgulho em ter-me levado para França, pois, segundo ele, “os outros mecânicos franceses não percebem nada do ofício, o Araújo é que sabe”.

Ainda hoje vai a França?
Deixei de ir a França a partir do momento em que deixei a Selecção Nacional, mas ainda tenho lá muitos amigos, alguns deles mecânicos de renome que andam no pelotão internacional e que foram ensinados por mim.

Tem saudades desse tempo?
Sim, tenho muitas saudades. Queria ver se ia lá este ano ou no próximo, para voltar a ver o pessoal amigo.

Mas acabou por regressar ao seu país…
Em 1983, estava em Pisa, Itália, quando recebi um telefonema do Agostinho. Ele já estava em Portugal e disse-me “ó Araújo, tu tens que vir porque vamos montar a equipa do Sporting”. Eu, ainda pouco convicto, disse-lhe: “Ó Agostinho, isso é para durar um ou dois anos e depois acaba”. Ele respondeu-me que não, que era para continuar. Como não podia deixar para trás o Agostinho e o meu Sporting, regressei para ganhar menos de metade do ordenado que ganhava em França. O coração falou mais alto…

Um museu especial

O autêntico museu de bicicletas que tem em sua casa é uma forma de matar saudades?
A minha mulher costuma dizer que nunca saio do meu museu. De facto, é aqui que me sinto bem, venho reler os recortes de jornais, relembro situações que até eu já esqueci, e convido amigos de longa data para partilhar com eles este passado. Chego a receber telefonemas de coleccionadores estrangeiros a pedirem-me dados, pois a própria Federação Portuguesa de Ciclismo não tem tanta informação disponível.

Além do que se vê à primeira vista, tem ainda um riquíssimo fundo documental?
Há um coleccionador que vem a minha casa todos os anos recolher informação. De facto, desde muito cedo comecei a fazer recortes de jornais e revistas e cataloguei tudo por anos. Tenho muita documentação e, para se ter uma ideia da sua importância, ainda há pouco tempo esteve em minha casa, durante três dias, um coleccionador que tirou centenas de apontamentos da actividade do ciclismo entre 1942 e 1955. Como já não tinha mais tempo, prometeu regressar de novo no próximo ano.

Começou a guardar esses objectos e documentos desde o início da sua carreira?
Sim, tinha tudo guardado na minha casa em Sacavém. Tinha tudo encaixotado, e ainda recentemente descobri que tinha guardado o cartão da primeira Volta a Portugal que fiz, em 1957. Confesso que me emocionei ao ver aquele pedaço de cartão…

Nesse tempo, andar no carro de apoio devia ser uma aventura…
Os ciclistas não podiam receber água dos carros, pelo que tinham que ir às fontes encher os bidões. Recordo-me de ver os ciclistas nos tanques onde os animais bebiam para refrescar o corpo. Outros tempos. E é verídica a história do ciclista João Rebelo que parou numa taberna para beber uma cerveja, dizendo que o carro de apoio pagaria quando por ali passasse. Mas o taberneiro não acreditou, e obrigou-o a esperar pelo carro, pelo que ele perdeu toda a vantagem que tinha.

Começou depois a conviver com os grandes nomes do ciclismo nacional, como Alves Barbosa ou Joaquim Agostinho, e internacional, como o campeoníssimo Eddy Merckx…
O melhor ciclista português com quem trabalhei em toda a minha vida foi o Joaquim Agostinho. Houve outros muito bons também, como o Ruas ou o Joaquim Gomes, mas o Agostinho era especial. A nível internacional, onde o Agostinho também se destacava, o melhor com quem trabalhei foi sem dúvida o Eddy Merckx. Para mim, foi ele o melhor ciclista de sempre até hoje. Um dia pode aparecer um ciclista como ele, mas melhor é difícil. Onde entrava era para ganhar.

Mas o Agostinho era de facto especial para si. Ele que costumava dizer “com o Xico Araújo é meio caminho andado”…
O Agostinho era uma pessoa extraordinária. Era tão bondoso que acho que não havia ninguém que lhe fizesse mal. Ajudava todos, desde colegas a adversários. Uma vez ajudou o Merckx numa subida na Volta à França quando o Eddy ficou sem colegas e estava a passar mal. Numa outra ocasião recusou-se a passar o Poulidor porque teve pena dele. O Agostinho era de facto único.

Quando é que o conheceu?
Quando ele veio para o Sporting. Eu andava lá desde 1957 e apanhei o Agostinho em 1968, que veio pela mão do João Vale, que era também um grande ciclista. A partir daí, para onde ia o Agostinho ia eu também.

Como era ele como ciclista nos primeiros tempos?
Ele não chegou ao Sporting muito novo, pois já tinha 25 anos quando começou. Não tinha reflexos nenhuns, caía muitas vezes, tinha pouca técnica pois não tinha tido formação neste desporto. Teve de aprender à sua própria custa. Mas tinha uma força extraordinária. Ia muitas vezes a acompanhar o Agostinho e só se via as pernas em movimento pois o corpo não mexia. Pedalava com muita força. Utilizava habitualmente uma roda pedaleira com 54 dentes, mas no último contra relógio que ele fez de Sintra a Lisboa utilizou uma com 56 dentes. O normal nessa altura era os ciclistas usarem uma pedaleira com 53 dentes, no máximo 54. De facto, ele estava acima de todos os outros…

Sendo mecânico de bicicletas, sentia-se de alguma forma responsável quando alguma coisa não corria bem aos seus ciclistas, nomeadamente as famosas e tão perigosas quedas?
Regra geral, as quedas são falhas do ciclista. Podem haver falhas do mecânico, ao não apertar um cabo ou um parafuso, mas comigo isso nunca aconteceu porque perdia horas e horas de volta de uma bicicleta. Nas grandes competições, era sempre o último a ir para a cama, pois apertava todos os parafusos que a bicicleta tinha e por isso perdia muitas horas. Mas tinha a consciência tranquila, pois sabia que no dia seguinte a bicicleta estava em perfeitas condições. Podia sempre partir-se ou estragar-se qualquer coisa, mas isso já não era responsabilidade do mecânico.

Tem noção de que o ciclismo é um desporto perigoso?
Perigosíssimo. Vou contar-lhe uma história: o Joaquim Agostinho era um ciclista que travava muito, porque tinha medo de descer. Então, quando aconteciam etapas com descidas acentuadas da alta montanha, tinha sempre uma roda preparada para ele, porque ele travava muito com a roda da frente. A roda começava a aquecer, o baião torcia e, quando terminava a descida, substituía-lhe sempre a roda da frente. Já sabia que ele ia parar a bicicleta, pois se ele não a parasse, mais tarde ou mais cedo podia soltar-se o baião da roda. Ele já sabia do perigo que corria, porque uma vez saltou-lhe um baião para fora porque ele não parou. Nessas alturas o perigo é constante e há alguns casos de mortes nas estradas, especialmente em França, nos Pirinéus e nos Alpes.

Entre voltas a França, Espanha ou Portugal, qual foi o momento mais emocionante que desportivamente viveu?
Foi sem dúvida uma Volta a São Paulo, no Brasil, prova que o Agostinho ganhou. O Joaquim ganhou muitos troféus mas, sem dúvida, esse para mim foi a melhor recordação, porque todas as equipas estavam a correr contra Portugal. Havia italianos, franceses e brasileiros, mas todos queriam derrotar os portugueses. Chegaram a mudar o local da meta para o Agostinho não ganhar uma etapa, mas no final ele venceu mesmo, pois era o melhor.
No final, durante a cerimónia do pódio, ao ouvir o hino nacional emocionei-me de tal forma que nem dei pelo facto de me terem roubado os impermeáveis que tinha no colo. Foi um momento único.

E a maior tristeza?
A minha maior tristeza foi a morte do Agostinho. Tinha levantado o Agostinho tanta vez, em Portugal e lá fora, mas nesse dia ele tinha vestido a camisola especial do contra relógio da véspera. Estava a chover muito e, como havia um limoeiro na zona da partida, fui lá pedir uns limões a uma senhora. Ela deu-mos, parti-os ao meio e passava pela roda, para que o pneu ganhasse mais aderência.
Contudo, na marginal da Quarteira, em plena recta da meta, dois cães passam pelo pelotão e vejo dois ciclistas a cair. Um deles era o Agostinho. Não tirou as mãos do guiador e deu um autêntico pino. Saí do carro, agarro-o e senti que ele estava como que um peso morto. Vi que tinha a cabeça inclinada para a frente e o pé esquerdo não assentava no pedal. Percebi logo que ele não estava bem. Acabou por terminar a etapa, vestido de amarelo como não poderia deixar de ser, e depois acabaram por transportá-lo para a pensão onde estávamos instalados porque ele não quis ir logo para o hospital. Aquela teimosia dele acabou por ser terrível. Mais tarde, já que não melhorava, lá fomos para Loulé. Em Loulé não havia médico, tiveram de levá-lo para Faro. Não havia a especialidade que precisava, acabou por vir para Lisboa, mas já nada havia a fazer. Quando morreu eu estava na Volta à Colômbia, e não pude estar no seu funeral. Sofri muito por não o acompanhar nessa última viagem.

Sonhos e realidades

Como analisa a realidade do ciclismo nos dias de hoje?
O grande problema é o doping, algo que sempre houve pois a modalidade é muito dura e os investidores querem resultados a todo o custo. São eles que muitas vezes obrigam os ciclistas a tomarem algumas coisas que não deviam tomar. Alguém tem de perceber que não se podem organizar corridas com mais de 200 quilómetros diários, e esperar que no dia seguinte os homens vão para a estrada de novo. São homens, não são máquinas.

Gostava de ainda cumprir algum sonho?
Ainda gostava de fazer uma Volta à França. Rever os meus amigos e ver aquelas montanhas lindas onde passei grande parte da minha vida.

É verdade que nunca ofereceu uma bicicleta ao seu único filho?
É verdade, sim senhor. Vi muitas quedas, muitos ferimentos, algumas mortes, e sempre tive medo que pudesse acontecer ao meu único filho o que vi acontecer a outros. Foi por medo que não lhe ofereci a bicicleta.

Qual o destino que gostaria de dar a todo este espólio que tem na sua residência?
Há um Arquivo Nacional nas Caldas da Rainha e já me perguntaram quando é que eu levava este material para lá, mas eu não quero porque para estar dentro de gavetas é melhor estar aqui.
Como não me parece que alguém da minha família queira ficar responsável por isto, gostaria que o meu legado ficasse na minha terra, em Sacavém, ou no meu concelho, em Loures. Não sei se a Câmara de Loures se interessaria por este material, mas gostava de facto de poder deixar as minhas memórias na terra onde nasci.

 

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